Até onde vai a toca do coelho da produção literária
- Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
- 31 de out. de 2022
- 4 min de leitura
As especificidades da autopublicação, as responsabilidades que o autor toma para si e os problemas de mercado
Por Allan Alexandre Carneiro
Nos últimos anos a literatura independente tem ganhado cada vez mais espaço e se revela um caminho promissor, apesar do comportamento pouco leitor da população brasileira. Com a popularização de plataformas como o Wattpad e o Spirit os autores têm a possibilidade de publicar suas obras a custo zero e confrontá-las com a opinião do público pela primeira vez. O que se revela como um primeiro passo em direção à publicação profissional, seja ela independente ou não.
Publicar uma obra de forma independente é tomar para si todas as responsabilidades que, tradicionalmente, são das editoras. Inclusive as financeiras, por mais que possa se utilizar de artifícios como o financiamento coletivo. Na prática, o autor fica encarregado de editar e revisar o próprio texto, além de diagramar e criar as artes, como capa e qualquer outra imagem que vai compor o produto final. O ideal é contratar pessoas especializadas em cada área, entretanto é algo que pesa bastante no bolso do autor que precisa se preocupar com essas etapas e também a divulgação do livro. Além disso, na maior parte das vezes os autores precisam se desdobrar em outros afazeres pessoais e profissionais, pois eventuais lucros da empreitada só virão depois da publicação. Por isso, ‘a falta de tempo é uma das maiores inimigas’ da produção independente de literatura, como afirma a romancista - e também bombeira - Laís dos Passos, autora com mais de 7 obras publicadas.
Apesar dessas complicações, livros publicados dessa forma carregam consigo algumas vantagens inerentes ao método de publicação. Com essa possibilidade, a tendência é o mercado literário ficar cada vez mais rico em diversidade. Temas e autores que as editoras mais tradicionais tendem a ignorar podem ver a luz do dia e conquistar seus leitores. Outro ponto interessante - de acordo com Cezar Tridapalli, autor, tradutor e professor de oficinas de criação literária -, há “a vantagem [de] não ficar meses, talvez anos esperando de editoras uma resposta que na maioria das vezes não vem.” O que agiliza o processo como um todo.
Os entremeios da produção literária
Por mais que entrar no mundo da produção literária seja o interesse de muita gente, não são muitas as que iniciam, efetivamente, a escrita de um livro - e menos ainda as que terminam seus projetos. Escrever uma obra, e publicá-la, exige do autor um sem número de competências para além da escrita, como revisar, organizar e, mais importante de todas, identificar e cortar as gorduras do texto.
Para atingir essa maturidade o escritor pode buscar participar de oficinas de criação literária, como as ministradas pelo Cezar, que o ajudarão a tecer atalhos e alcançar um certo nível de domínio da linguagem enquanto poupa algumas frustrações. Mas nada substitui a prática em si e o estudo por meio de uma leitura atenta. O trajeto de aprendizagem da Laís é exemplo disso, por mais que ela tenha feito algumas aulas de escrita e marketing digital para autores, a grande maioria do conhecimento que hoje ela possui foi fruto de tentativa e erro, mas com várias frustrações pelo caminho justamente pela falta de cursos voltados para isso quando ela começou. Hoje a autora compartilha um pouco da experiência que adquiriu por meio de dicas e orientações em algumas publicações no Instagram (@divadistopica).
Para Tridapalli, a escrita tem mais a ver com a forma que se apresenta o conteúdo do que o conteúdo em si. Para o autor, “uma boa história mal contada é pior do que uma história comum bem contada”. O trabalho da linguagem, nesse caso, é apresentar os temas que já foram apresentados antes, mas de forma que impacte o leitor e, se o domínio for bom o suficiente, que apresente uma nova perspectiva do lugar comum. Porém, na prática, grandes obras podem apresentar os mesmos temas de formas nada inovadoras e ainda assim conquistarem o posto de grandes obras.
Toda linha pode ser reescrita ou lapidada. Para Laís dos Passos, “um parágrafo mal escrito é melhor que parágrafo nenhum”. E o domínio da linguagem se conquista com o tempo, com a prática e com o estudo.
O público e o meio em si
Em 2019, de acordo com a 5a Edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, 48% dos entrevistados não leram nenhum livro nos últimos três meses. Por mais que o Brasil seja um país populoso, com potencial enorme de público em todas as classes sociais, o mercado da literatura é um meio perigoso. Obras com uma maior complexidade linguística exigem uma maturidade educacional que apenas grupos menores da população terão. Além de ser um produto que não interessa aos governos com aspirações autoritárias e que não valorizam a educação de qualidade. “ Aqui, deixamos de ser leitores antes de o termos sido”, como afirma Tridapalli.
Por outro lado é possível observar um crescimento nos meios que veiculam a literatura nos últimos anos, que tem ajudado a contornar problemas como o custo das obras, com os livros digitais, e a falta de tempo ou disponibilidade para ler, com os audiobooks. É visível também o crescimento de comunidades voltadas para a literatura em redes como TikTok e Instagram, com o fenômenos dos BookTokers e dos Bookstagrams. O que revela o crescente interesse desse público na literatura.
As plataformas de publicação online, como o Wattpad e o Spirit, também são um respiro de otimismo nesse mercado. Além de ser altamente movimentado - com livros que ultrapassam a faixa das 10 milhões de leituras -, existem casos de obras de grande sucesso de público, como o livro Cinquenta Tons De Cinza, que nasceu como uma fanfiction desse tipo de plataforma.
Crédito da imagem: Freepik




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