Como “Flight of the Conchords” (2007) revoluciona a comédia musical
- Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
- 17 de set. de 2023
- 3 min de leitura
A série cult da HBO queridinha dos amantes de músicas absurdas
Por João Marcelo Simões
Criado por Jemaine Clement e Brett McKenzie, Flight of the Conchords é a história de dois músicos Neozelandeses que se mudam para Nova Iorque para se tornarem um sucesso. Criado pela dupla musical com o mesmo nome do seriado (tendo os integrantes da banda o mesmo nome dos protagonistas), as personagens batalham a pobreza e suas desventuras cômicas junto com um empregado do consulado da Nova Zelândia e gerente da banda, Murray Hewitt. FOTC (como é normalmente referido) é uma comédia musical da HBO lançada ao ar em 2007. A banda se refere como a “A quarta dupla mais famosa de acapella-rap-funk-bongo, com foco no violão, cômica da Nova Zelândia.”
“Eles me odeiam porque eu faço raps sobre a realidade / Como eu e a minha vovó tomando uma caneca de chá / Não há festa como a festa de chá de minha vó” diz, em tradução livre, a canção “Hiphopopotamus vs. Rhymenoceros”. Apresentada no terceiro episódio do seriado, a obra trata de dois artistas fictícios — com aspectos físicos zoomórficos — travados em uma batalha de rimas. A tiração de sarro contida nessa narrativa é exemplar do acervo musical do grupo.
Parodiando gêneros musicais diversos, — de música eletrônica, a rock alternativo, a pop experimental — a série goza de um segmento de ouvintes pequeno, porém extremamente devoto. Estreia-se em 2007, ao meio de um movimento de ascensão das “comédias de vergonha alheia” como The Office (2005). A mídia segue o paradigma da época quando se trata de cenas cômicas que pretendem fazer o espectador se contorcer de vergonha.
Como diferencial, Flight of the Conchords retrata uma visão inocente do mundo. Os personagens principais são dois idiotas amáveis, inseridos em um mundo tão idiota quanto amável. O contraste de personalidades sérias com personagens jocosas é um marco da comédia, criado no começo do gênero. Chaplin sempre há de se esquivar de suas contrapartes sérias para poder se divertir, e assim criava a comédia. O mesmo é visto em The Office, quando Michael — chefe de empresa quem só quer promover a diversão em seu ambiente de trabalho — se percebe alienado do mundo corporativo em que está inserido. Em antítese, Flight of the Conchords se desfaz da seriedade completamente. Cada personagem explorado é absurdo. Os interesses românticos dos protagonistas, o proprietário do apartamento em que a banda vive, o primeiro ministro da Nova Zelândia. Ninguém escapa de ser retratado como uma piada ambulante.
As interrupções musicais na série vêm como um sonho repentino, ou uma psicose temporária. Ao meio de serem assaltados — novamente no episódio 3 — Brett e Jemaine iniciam uma canção e uma elaborada dança. Os efeitos da estranheza de um número musical espontâneo não afetam os ladrões, que procedem sacando uma faca para ameaçar a dupla. A inocência dos personagens mesmo diante das situações mais deprimentes, seja o fracasso amoroso, ou a falha de pagar o aluguel atrasado já há meses, é deliciosa. Além de divertida, é otimista. Até estoica. Um abalo emocional para a banda é só mais um motivo para quebrar a continuidade da história e iniciar uma canção.
Flight of the Conchords ganha duas temporadas e só é cancelada pela monotonia da gravação. Em uma entrevista com The Guardian, os músicos admitem que já não aguentavam mais trabalhar um com o outro. “Não é que não gostávamos da companhia um do outro, só não era divertido”, diz McKenzie. Após a decisão de terminar definitivamente com a obra, a banda diz para seus produtores não mencionarem a quantia que a HBO estava preparada a oferecer a eles por uma terceira temporada.
A mistura de veracidade em sua arte e a inocência é o que torna Flight of the Conchords a série que redefiniu o gênero comédia.
Hoje, o grupo não faz muito mais que criar suas famílias em Wellington. Só fazem tours quando sentem que querem. Flight of the Conchords está disponível na HBO Max e na mente de fanáticos que se recusam a deixar de amar a banda.
Imagem: Reprodução




Comentários