Cânhamo é alternativa ainda pouco explorada na moda sustentável
- Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
- 17 de mar. de 2024
- 5 min de leitura
Tecido derivado da mesma planta que a maconha pode ser usado na indústria têxtil para confecção de produtos duráveis
Por João Marcelo Simões

Foto de João Simões
O cultivo da Cannabis sativa, a popular maconha, é pauta de discussão no mundo inteiro, com o enfoque caindo em especial sobre o uso medicinal ou recreativo da planta. Mas um lado pouco explorado pela mídia é o seu uso na indústria têxtil, por meio de sua fibra, o cânhamo.
O uso do tecido de cânhamo é milenar e sustentável. A aplicabilidade da erva para produzir tecidos foi descoberta na Mesopotâmia, em torno de 8 mil A.C. e suas propriedades fizeram o material permanecer em uso até hoje. É forte, durável, macio e sustentável, características que atendem inúmeras finalidades no mundo têxtil. No Brasil, o cultivo da fibra em larga escala e seu manufaturamento é ilegal e o tecido é pouco conhecido pela população em geral, porém certos grupos lutam pela sua liberação.
Em Mandirituba, na grande Curitiba, a empresa DNA Soluções em Biotecnologia, especializada em biotecnologia vegetal e engenharia genética, solicitou ao Superior Tribunal de Justiça (STF) um recurso que visa a possibilidade de cultivar o cânhamo em larga escala para atender à demanda da indústria farmacêutica brasileira. A empresa é a protagonista do movimento para a abertura do mercado à fibra, visando o benefício da economia local.
"Estima-se que o custo médio do cultivo nacional em R$/ha (reais por hectare) seria de aproximadamente R$6.8 mil para cultivo focado em sementes, e de R$5 mil para cultivo focado em fibras. Enquanto para o cultivo voltado à produção de óleo de CBD [canabidiol] no Brasil o custo médio em R$/ha seria de R$180 mil em razão da diferença entre os modos de cultivo", diz Kiara Carolina Cardoso, co-fundadora da DNA Soluções e doutora
em Farmacologia.
"Acreditamos que todo o Paraná, assim como o Brasil, tem grande potencial de produção. Ainda serão necessários estudos para definir as melhores variedades de sementes para cada região do estado. Mas, se analisarmos o nosso vizinho Paraguai, que atualmente é o maior produtor de cânhamo na América Latina, podemos prever que teremos uma grande produção em nosso estado", adiciona Cardoso.
Intertítulo: Da erva à fibra
O tecido de cânhamo, como é conhecido (sim, cânhamo é um anagrama de maconha), é um material feito das fibras e caule da planta Cannabis sativa. A matéria-prima é conhecida no mundo da moda por proporcionar alta durabilidade às roupas, além de ser extremamente sustentável.

Legenda: Estrutura fibrosa do caule do cânhamo e os fios utilizados para a produção têxtil.
Fonte: Wikipédia.
No estudo "Industrial hemp fiber: A sustainable and economical alternative to cotton" (Fibra de cânhamo industrial: uma alternativa sustentável e econômica ao algodão), conduzido no Rensselaer Polytechnic Institute, em New York, explica que a planta requer pouca quantidade de água — 500 ml a cada irrigação — para crescer. Para comparar, entre 600 – 750 ml são gastos na rega de uma planta de algodão. Além disso, a Cannabis é uma erva que naturalmente repele pragas, tornando o uso do agrotóxico durante seu plantio desnecessário. De acordo com o estudo, as colheitas ocorrem de uma a três vezes por ano – enquanto o algodão suporta uma colheita por ano.
Em termos de custo-benefício o estudo mostra que a erva é a melhor opção. Além de ser biodegradável, pode ser cultivada ao longo do ano inteiro. Comparado ao algodão, o cânhamo reduz em 77% os custos da extração de fibra por uma tonelada de planta. Mas afinal, como ocorre o processamento do tecido?
FOTO - DIAGRAMA

Legenda: A jornada do cânhamo, da erva à fibra. (Dados: Ana Gabriela Duque Schumacher. Tradução e diagramação: João Marcelo Simões)
A obtenção de fibras a partir do cânhamo começa com o processo de retificação, que desintegra as pectinas responsáveis por unir as fibras, seja por meio de produtos químicos, bactérias ou fungos naturalmente presentes. Em seguida, os caules são desagregados utilizando um quebrador ou rolos estriados. A próxima etapa é a escovagem, na qual os caules são batidos para separar as fibras do núcleo. O passo final consiste no processo de "hackling", no qual as fibras são penteadas para remover partículas indesejadas. Durante o processo, são retiradas fibras para a confecção de alimentos, bebidas, cosméticos e produtos de higiene pessoal. Só resta então a fibra da erva ser transformada em contínuas mechas para a confecção do tecido. Hoje, a China produz mais de 70% do cânhamo do mundo.
"Recentemente a União Europeia declarou que o cultivo de cânhamo contribui para conter a ameaça do aquecimento global", afirma Kiara Cardoso. "Além de ser uma espécie cultivada por milênios e com diversas finalidades na indústria, o cânhamo se destaca principalmente por seus benefícios sustentáveis: armazenamento do dióxido de carbono, quebra do ciclo das doenças quando utilizado na rotação de culturas, prevenção da erosão dos solos, descontaminação do solo e da água, conservação da biodiversidade, utilização reduzida de pesticidas."
"...o cultivo de cânhamo contribui para conter a ameaça do aquecimento global" (Kiara Carolina Cardoso, co-fundadora da DNA Soluções)
Os impactos da ilegalidade do cânhamo na moda
Gabriela do Vale Wuthrich, designer de moda formada pelo Centro Europeu, em Curitiba, e dona da loja Favo de Mel Style, defende o uso do material na indústria têxtil. “Eu com certeza venderia produtos de cânhamo na Favo. Dá para fazer desde um cropped, uma calça, até um blazer [com a erva]. Há muitas aplicações. Tudo que você faz com o algodão você faz com o cânhamo. E eu certamente conseguiria vender os produtos”.
"Dá para fazer desde um cropped, uma calça, até um blazer [com a erva]. Há muitas aplicações." (Gabriela Wuthrich, designer)
A designer entende que, a partir do momento que se vende a ideia da sustentabilidade do cânhamo – “o que ele faz para o meio ambiente e o quanto ele pode ser utilizado” – aumenta-se a conscientização de um consumo sustentável sobre roupas e outros acessórios feitos com a fibra. “Não é nem sobre o material em si, é sobre os benefícios ao ambiente. Apoio muito o uso de cânhamo”, completa Gabriela.
Porém, a produção, confecção e importação do cânhamo é ilegal no Brasil. No âmbito federal, o projeto de lei n° 5.295, de 2019, submete ao regime de vigilância sanitária a "produção, a distribuição, o transporte, a comercialização e a dispensação de cannabis medicinal e dos produtos e medicamentos dela derivados. Determina a regulamentação da produção da cannabis medicinal e do cultivo do cânhamo industrial”. As exceções, com mandados judiciais e autorização na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), abrem precedentes para o uso medicinal.
Países como a Coreia do Sul, França, Chile, Estados Unidos, Paraguai, Uruguai e Holanda permitem a produção do cânhamo para fins industriais. Muitos movimentos do mundo da moda e empreendedores da área tentam trazer visibilidade à causa.
Embora exista uma legislação anti-canabis no Brasil, é possível importar blusas e outras peças e acessórios produzidos com cânhamo. Algumas marcas brasileiras como a Weedog, Greenco e grifes curitibanas como Öus e Ecoorgânica conseguem desenvolver e comercializar produtos com a matéria-prima.
Galeria de fotos
Foto - Roupa de cachorro e Boné Weedog Trucker elaborados com o cânhamo. (Imagens: Weedog)

Foto - Calça de moletom de cânhamo. (Imagem: Ecoorgânica)
Foto - Camisetas de cânhamo da Öus. (Imagem: Öus)
Sobre o futuro do tecido, Wuthrich relata que existem “condições de suportar a entrada do cânhamo na moda. É algo sustentável, barato e prático. Seu uso só não é adotado pela posição anti-canabis do país. O que não faz nenhum sentido, porque nem dá para ficar doidão fumando cânhamo.”
“É algo sustentável, barato e prático. Só não é adotado pela posição anti-cannabis do país.” (Gabriela Wuthrich, designer)
É importante destacar que o cânhamo não é uma matéria-prima utilizada para tragar ou digerir. Óleos terapêuticos e medicinais, produtos para usos recreativos, cânhamo e outros derivados são extraídos de uma única planta, a Cannabis sativa. No processo que origina o cânhamo, só são utilizados as fibras e o caule da Cannabis, descartando-se as flores e demais elementos que de onde se extrai, por exemplo, o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), substâncias psicoativas e medicinais. No processo que gera a maconha, somente as flores são utilizadas. A diferença é fundamental em termos de usos e aplicações.
Foto: Reprodução












Comentários