Era dos 'Remakes' e 'Reboots': a nova realidade da indústria cinematográfica
- Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
- 23 de fev. de 2023
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Em busca de uma aposta segura de bilheteria, produção audiovisual utiliza recurso para despertar a memória afetiva do espectador
Por Erika Nascimento Boslooper
Com o avanço da pandemia, a indústria cinematográfica precisou buscar uma nova fórmula para alavancar a audiência e obter um alto valor de lucro nas obras audiovisuais. A aposta em utilizar o recurso de memória afetiva em prol da produção, se mostrou um caminho eficaz e de investimento seguro, para atrair um público significativo, servindo como contribuição direta para que a era dos reboots e remakes se instaurasse.
Cada vez mais presentes no universo hollywoodiano, os roteiros mais vendáveis atualmente tendem a ser aqueles que de alguma forma recontam histórias já estimadas ou fazem o resgate de clássicos. As novas tecnologias e recursos de edição, permitiram que as produtoras reproduzissem suas histórias com efeitos visuais e sonoros mais aprimorados. Mestres em marcar gerações, os estúdios Disney se tornaram seguidores assíduos dessa tendência, ao adaptar as animações em live-action, como fez em ‘A Bela e a Fera’, teve um retorno de mais de 1,263 bilhão de dólares no mundo todo. Assim como, arrecadou cerca de 5,26 bilhões de dólares em bilheteria mundial, ao dar sequencialidade a um de seus clássicos, em ‘Os Incríveis 2’.
Apesar do sucesso de bilheteria, há uma linha tênue entre a busca pelo apelo emocional do público e a saturação de uma história já encerrada, que as produtoras precisam se atentar para não cruzar. Segundo o jornalista e crítico de cinema, Victor Russo, “Todas (ou quase todas) as histórias já foram contadas, o importante é como elas são contadas, é isso que a torna diferente. A grande maioria de reboots e remakes são apenas replicações vazias.”
Refazer um filme e começar uma franquia do zero novamente, são exatamente os pontos que o fenômeno dos remakes e reboots busca atingir, respectivamente. Esse movimento deu oportunidade de títulos renomados e grandes franquias voltarem a fazer história depois de décadas de seu lançamento. Como é o caso das refilmagens de ‘Nasce uma estrela’, ‘A fantástica fábrica de chocolate’, ‘Sexta-feira muito louca’, e também, o direcionamento original dado nos diversos universos de ‘Homem-Aranha’ e ‘Batman’.
A nostalgia como método atrativo
A lógica industrial e empresarial de investimento em projetos com retorno certeiro, não faria sentido sem a resposta positiva da audiência, um grande desafio, já que seu ponto de vista tende a ser bastante subjetivo. A alternativa encontrada pelos estúdios, foi incorporar elementos que despertam o sentimento nostálgico em quem assiste, uma vez que, a sétima arte, tem a capacidade de transportar alguém no tempo e espaço, com maestria. O repórter cinematográfico, graduado em marketing, Danilo Moreira, revela que, “Desde 2016 esse mercado já faturou mais de R$ 18 bilhões. A indústria tem apelado muito para o sentimento nostálgico pelo laço emocional que se cria entre o consumidor e a marca. Antônio Damásio chama isso de Marcador Somático. É quando você vive uma circunstância que nunca vai sair da sua memória e, sendo prazerosa, você a reconhece e seu comportamento será sempre de interação ativa a cada vez que você seja exposto a ela. Além disso, a probabilidade de se pagar mais caro é muito alta.”
Tal estratégia de mercado, é utilizada com frequência no ramo publicitário, com o objetivo de atrair público. Em 2021, por exemplo, diversos elementos da cultura pop do passado, sobretudo dos anos 2000, voltaram à tona, atingindo especialmente a geração Millennial, visto que, sua infância e adolescência se deram nessa época. Chamada de 'Marketing da Nostalgia’, Moreira explica que, “Nostalgia é quando você lembra de algo do passado que provoca sentimentos bons, aquela sensação de que o tempo voltou por alguns instantes e você deve aproveitar ao máximo, pois ele pode não voltar mais ou com tanta frequência. Então, essa forma de marketing tem o poder de tocar em pontos do cérebro das pessoas que guardam boas memórias de emoções que “esse tempo” lhe proporcionou. Passa a ser considerado pelo consumidor algo raro e de grande valia”.
A tática também se mostra bastante eficiente em quesitos de competitividade, em razão do potencial em atingir segmentos distintos de consumidor: um novo que está sendo introduzido ao seu produto e um velho que já o conhece. Ao ativar sentimentos saudosos, se estabelece conexões emocionais com público, contribuindo para que determinada marca esteja mais presente em sua mente e seja associada com sensações positivas. De acordo com o profissional de marketing, “As marcas sabem que as decisões de compra são baseadas nas emoções e esse laço afetivo alcança uma porcentagem muito alta de lucro. A nostalgia influencia na vida das pessoas transportando-as para o lugar onde elas queriam estar agora. Esse mercado atinge principalmente gerações mais antigas. Mas as inovações tecnológicas em filmes, por exemplo, com desenhos mais modernos sem perder a essência, com um pouco mais de efeitos e tudo o que a tecnologia pode otimizar, além da influência dos mais velhos, novas gerações têm tido a “curiosidade” de experimentar toda a experiência proporcionada”.
O relacionamento entre hollywood e o marketing
A indústria cinematográfica e o ramo publicitário estão indissociavelmente atrelados, de acordo com Russo, “Em um mundo com conteúdo quase infinito (seja filmes, séries, vídeos em redes sociais), o marketing é fundamental para atrair a atenção do público para assistir àquele filme. Desde a década de 1970, quando a indústria hollywoodiana percebeu o potencial do marketing na Tv para divulgação, são coisas indissociáveis a ponto do preço gasto com um filme ser, geralmente, 50% na sua produção e outros 50% (ou mais) no marketing”.
Logo, a aposta na familiaridade, também é um cenário confortável de retorno para a perspectiva dos anunciantes. Por disporem da vantagem inicial de ter um público-alvo estabelecido e uma história já reconhecida, há uma margem abundante de possibilidades que estes podem explorar, desde uma forma indireta, como o product placement, ao introduzir seu produto naturalmente no filme, até algo direto, ao fornecer itens originais inspirados nas obras, dado que, simultaneamente a marca passa a ganhar mais visibilidade ao ter seu nome atrelado ao conteúdo. Moreira revela que “Há anos toda a influência dos comerciais e publicidades é exercida no subconsciente das pessoas para que a decisão de compra seja impulsionada pelas emoções. Não se trata de oferecer um produto, mas a experiência que ele proporciona.” e, Russo complementa frisando que, “O marketing e o cinema não vivem mais um sem o outro. O cinema influencia gerações e o marketing lança a marca que essas gerações vão consumir. Sem falar em toda a produção, toda a parte em que se precisa de investimentos para viabilizar a execução de todos os processos. Situações em o público de determinada faixa de idade e comportamentos semelhantes irão se identificar com a cena e ter em seu subconsciente qual a marca escolher no dia em que for adquirir produtos dessa natureza”.
Imagem: Pexels




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