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Espaços teatrais são palco de esvaziamento

  • Foto do escritor: Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
    Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
  • 30 de nov. de 2022
  • 4 min de leitura
A inevitabilidade da adaptação, a cultura de consumo e a negligência estatal são os antagonistas das companhias de teatro

Por Erika Nascimento Boslooper


No cenário brasileiro dos últimos anos, é possível perceber que o teatro, e a cultura em geral, se encontram cada vez mais afastados da realidade da população. Com a escassez de fomento para o consumo artístico, juntamente à dificuldade de adaptação das produções artísticas, há um crescente desinteresse do público por esse tipo de atividade, o que afeta diretamente os profissionais da área.

Apesar de ser um país com multiplicidade cultural, frequentar espetáculos teatrais não é um hábito comum entre grande parte dos brasileiros. Dados disponibilizados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelam que cerca de 70% da população jamais entrou em centros culturais. A partir disso, nota-se que viver de arte no Brasil não está entre uma das carreiras mais fáceis e confortáveis de se exercer. De acordo com o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado do Paraná (SATED), o piso salarial de um ator/atriz teatral, é de R$ 166,44 por apresentação.

O decaimento de público nos espetáculos, influencia diretamente no financeiro da companhia teatral, visto que, dependem do que se adquire diariamente na bilheteria e muitas das vezes, é necessário utilizar de outros recursos para o aumento da rotatividade, tais como sublocar o espaço e disponibilizar oficinas teatrais e workshops. A classe artística também possui constantemente um ‘plano b’ e tende a desempenhar inúmeras funções para além daquela que possuem especialização.


Relação entre público e produção


O ator e diretor teatral, Lucas Cardoso, comanda há 10 anos espetáculos no teatro Lala Schneider -primeiro teatro independente do Estado do Paraná- e afirma que “cultura é identidade”, por isso, negligenciar o acesso à cultura para um povo, é o mesmo que inibi-los de conhecer sua identidade nacional. Além de ser um dos pilares mais importantes para o desenvolvimento e interação social, a produção cultural também está atrelada a formação intelectual, ou seja, tal distanciamento pode acarretar seriamente no empobrecimento cognitivo da sociedade.

Para ele, a falta de estímulo a partir da base escolar, torna-se um dos principais fatores, pois se houvesse o reconhecimento da importância da arte e teatralidade desde a infância, colaboraria para romper com o viés pouco familiarizado dos cidadãos em relação aos espaços culturais. Da mesma forma com que, ajudaria a sanar com o estigma e receio advindos historicamente da noção de cultura como sinônimo de sofisticado e erudito, visto que, os eventos culturais, tiveram no passado, fases bastante elitizadas, com apresentações complexas, voltadas para a classe artística e àqueles que possuíssem elevado conhecimento. Lucas reflete que “a maioria das pessoas quando assiste um filme ruim, não deixa de ir ao cinema por causa disso, já quando assistem uma peça que não gostam, por não terem o costume de consumir teatro, acabam não voltando”.

Ulisses Quadros Galetto de Moraes, professor de produção cultural e doutor em história, complementa que tal desinteresse pelas produções artísticas, sobretudo teatrais, está de mesmo modo, relacionado à questão da cultura de consumo, em razão do impacto significativo das novas formas individuais de consumo cultural, como é o caso das plataformas de streamings, que permitem a escolha pessoal de conteúdo e cada vez mais, alteram a relação entre público/produção e forçam as companhias teatrais a adaptarem os espetáculos aos moldes do novo perfil da plateia, para tentar manter o consumo de segmentos artísticos dentro de padrões minimamente aceitáveis. “Tem um jargão da biologia que se encaixa perfeitamente [no que vem ocorrendo no mundo teatral] ‘não é a espécie mais inteligente que sobrevive, é a que melhor se adapta'", diz o professor.

Um exemplo nítido do efeito das inovações disruptivas, é o caso das apresentações online durante o período pandêmico, que para muitos não era considerada uma forma legítima de se fazer teatro, mas segundo Ulisses, “dizer que não é teatro é uma limitação muito grande, visto que esse modelo pode ganhar cada vez mais espaço agora no século XXI, devido a popularização das lives e streamings como uma forma crescente de comunicação, então o teatro precisa sim pensar nisso como uma nova forma de produção.”

Por outro lado, é possível observar que muitas companhias se esforçam para tentar achar um fio condutor entre os diversos públicos e assim produzir espetáculos mais abrangentes e acessíveis. “A gente não pode ficar refém do público, mas também fazemos o trabalho para ele", diz o diretor teatral. Como é o caso da ‘Ave Lola Espaço de Criação’, companhia curitibana independente, com projetos que visam democratizar o acesso ao teatro popular nacional.


Necessidade de fomento estatal


O implemento de políticas públicas e leis de incentivo à cultura são extremamente fundamentais para que se produza espetáculos gratuitos e os artistas sejam pagos por seu trabalho. Visto que o alto valor do ingresso é um dos grandes empecilhos para a população comparecer às apresentações teatrais -pois também está associado ao preço do transporte-, o auxílio do governo e órgãos que fomentam a cultura são essenciais para que se possa consumir e viver de arte no Brasil.

As leis de fomento são, significativamente, uma característica brasileira, em razão do país ter sido precursor de sua formulação. Para Ulisses, elas “são um mecanismo de alto valor artístico e cultural, que mudaram a história do nosso país”. Conforme a Abrape (Associação Brasileira dos Promotores de Evento), o mercado cultural diz respeito a quase 5% do PIB brasileiro.

Dessa forma, projetos governamentais como a Lei Rouanet, advinda do abatimento de impostos de renda das empresas, são de extrema importância pois financiam artistas de pequeno porte, possibilitando que vivam de sua arte com dignidade. Assim como, viabiliza às companhias teatrais retribuírem a população, ao distribuir entradas e oficinas de forma gratuita. Porém, no contexto atual, tais diretrizes se encontram no palco de polêmicas e fora do foco estatal.


Crédito da imagem: Freepik



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