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O papel da ficção ergódica na atualidade

  • Foto do escritor: Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
    Sinapse Agência de Publicidade e Propaganda da UFPR
  • 2 de set. de 2023
  • 2 min de leitura
Não linearidade como ferramenta de inclusão

Por João Marcelo Simões

Literatura ergódica – “ergódica” vindo do prefixo grego “ergo”, significando trabalho ou “logo” – é um gênero literário pós-moderno pautado na interação entre leitor e obra. Uma obra considerada ergódica possui peculiaridades que a separa de outras formas de expressão, como longas notas de rodapé, formatação estranha, ou narrativas que se moldam conforme a maneira que o material é consumido. Por exemplo, o livro “Dicionário Kazar”, escrito pelo sérvio Milorad Pavić, muda seu foco se lido de trás para frente. A necessidade de trabalhar para obter sentido das passagens complicadas e bizarras insere o espectador na narrativa.


As cartas de Whalestoe / Reprodução La BSK


O termo foi criado pelo cientista computacional Dr. Espen J. Aarseth em seu livro “Cybertext” no qual o autor explora e analisa textos não lineares.

O gênero é ambicioso e grandemente ignorado no cenário mundial. Exceto pela obra de Mark Z. Danielewski “House of Leaves”, o acervo ergódico não ganha tração no mercado internacional. Fato de estranhamento, o nicho sendo uma síntese do mundo pós-moderno.

O pós-modernismo baseia-se em um questionamento de valores. Um espasmo contra uma cultura que se diz acessível. O eco da pauta pós-moderna é “Acessível para quem?”; em protesto, a ficção ergódica apresenta-se universal. O leitor sendo o centro da obra abre o caminho para interpretações intensamente pessoais de cada obra. Não há um modo de ler.

Simula-se o vácuo de estímulos externos à arte. O leitor é, inextricavelmente, parte da obra. Assim, a democratização ocorre. Um indivíduo não tem a possibilidade de se sentir alienado se a perspectiva temática é a sua própria. Desse modo também se cria uma câmara que cerca o leitor. Sendo este uma parte da narrativa, ela a afeta com mais impacto. O gênero traz uma inclusão universal, mantendo – ou até aprimorando – a experiência sensorial pessoal de consumo da obra.

A inclusão é dada por esta máxima de participação. O lugar da ficção ergódica no mundo atual é este: a materialização das ideias propostas pelo pós-modernismo.

Por que o gênero não ganha tanta tração?

Por séculos prevaleceu a narrativa linear. Uma perspectiva contada por uma história fixa e rígida. O leitor exercia um papel trivial de espectador. Um rompimento tão drástico há de causar estranhamento.

A massificação do gênero só acontecerá depois deste preconceito se dissolver.

Considerações literárias

Para o leitor interessado, uma lista de obras ergódicas.

House of Leaves, Mark Z. Danielewski. (Random House, 2000) Segue a história de um jovem que encontra um manuscrito tenebroso deixado por um homem já falecido.

The Raw Shark Texts, Steven Hall. (Canongate, 2007) Eric Sanderson perde suas memórias e recebe cartas de seu velho “eu”.

Dicionário Kazar, Milorad Pavić. (Prosveta, 1984) Um lexicógrafo retoma o trabalho perdido de organizar um documento contando a história do povo ancião Kazar.

Pale Fire, Vladimir Nabokov. (G.P. Putman’s Sons, 1962) Poema de 999 versos escritos por um poeta fictício.

The Familiar, Mark Z. Danielewski (Pantheon Books, 2015) Nove narrativas diferentes de personagens ao redor do mundo em um só dia.


Imagem: Reprodução

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